Se eu pudesse apostar em alguma tendência para o futuro das artes plásticas, eu apostaria no “feio”.

Não estou falando do “feio” e do “disforme” das artes modernas e pós-modernas, com toda aquela empáfia desconstrutivista que teve, sim, suas motivações históricas para surgir. Estou falando de um “feio” que vai misturar o anti-design, a “anti-arte”, o glitch, a colagem, a gramática visual dos zines e, especialmente, os memes de baixa qualidade da internet, o shitposting e o Trashcore.

Em pleno e constante aprimoramento da geração de imagens por Inteligência Artificial, treinada e alimentada sob a expectativa de produzir o melhor output possível, a arte “feia” será o “vírus humano”, a sabotagem necessária e corrosiva que irá se espalhar e se multiplicar como um pequeno parafuso jogado nas engrenagens do algoritmo.

Não sou contra a perfeição, nem contra o algoritmo, nem contra a tecnologia. Nem mesmo contra a inteligência artificial.

No entanto, é imperativo, tal como o Papa Leão XVI nos alertou sapiencialmente no Magnifica humanitas, que o ser humano não seja constrangido pela ferramenta e que haja uma reivindicação da soberania humana sobre a técnica.

A ideia do Projeto Glitch é permitir que as imagens artísticas se libertem da aprovação do design corporativo e busquem o impacto visceral ou transcendental que lhes é de direito. É resgatar uma arte que se recusa a ser domesticada para se tornar “instagramável”, limpa e perfeitamente adequada às expectativas de uma interface.

Quando os artistas plásticos introduzirem ruído, colagens absurdas, memes de baixa qualidade e lixo digital nesse ecossistema, estarão envenenando o poço de treinamento das máquinas, fazendo o seu data poisoning.

A perfeição precisará se tornar kitsch até se tornar, novamente, humana ou divina. A inteligência artificial deverá retornar à condição de ferramenta auxiliar, uma ferramenta que ainda demande o ajuste, a intervenção e o erro humanos.

Ao sabotar a previsibilidade dos modelos de geração visual, essa arte “feia” poderá impedir que o algoritmo seja degenerado em um ciclo infinito de autorreferência estéril.

Em certo sentido, estaríamos fazendo algo semelhante ao que ocorreu no Barroco, que se afirmou contra aquilo que percebia como a perfeição pagã renascentista, que havia se tornado uma expressão estéril de simetria, proporção, clareza e harmonia geométrica.

O Barroco foi, essencialmente, uma das primeiras grandes respostas artísticas de impacto visceral e transcendental contra uma “perfeição” que havia se tornado fria, institucionalizada e domesticada. Foi o movimento que introduziu a assimetria, o dinamismo exagerado, as composições diagonais, o contraste violento do chiaroscuro, o drama, o êxtase e, por fim, a própria essência cristã do sagrado, em que o sublime e o divino eram encarnados na matéria.

Caravaggio e Bernini eram os “hackers” estéticos de seu tempo.

Sejamos também nós.